terça-feira, 5 de outubro de 2010

postheadericon Capítulo 1 - Livro A Herdeira

CAPÍTULO 1
1864


M
aria Luísa Natalie Callaghan Queirós de Castilho já havia terminado o curso de enfermagem na Corte, apesar de seus pais terem sido contra desde o início, e mesmo assim conseguiu convencê-los de que era seu sonho cuidar de pessoas enfermas nos hospitais. Entretanto, no início do ano de 1865 estava estabelecida uma crise diplomática entre o Brasil e a Inglaterra no Império de Dom Pedro II. Tudo começou por causa de uma discussão três anos antes envolvendo três oficiais da Marinha inglesa e uma sentinela de um posto de polícia. Os dois foram presos por terem ofendido a sentinela totalmente à paisana e embriagados. O embaixador inglês William Christie exigiu desculpas oficiais e o pagamento da carga a D. Pedro II.
No final do ano anterior, o Paraguai aprisionou um navio brasileiro e logo depois invadiu o Estado do Mato Grosso, com o intuito de reivindicar os mesmos direitos que os países vizinhos tinham quanto à navegação e ao comércio no rio da Prata – ponto estratégico disputado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai relativo à economia em torno da navegação nessa área.
            A guerra já foi declarada pelos paraguaios, mas o Império brasileiro ainda não havia se manifestado a respeito, o que poderia acontecer a qualquer momento. Maria Luísa, assim como todos esperava ansiosa pelo desenrolar dos acontecimentos, e por isso foi procurar pelo major Martim Afonso Almeida no quartel do Comando Militar. Há um ano e meio eles dois estavam juntos, e sempre ambos se encontram às escondidas por causa dos pais dela.  
            Ao chegar, um dos soldados permitiu que ela entrasse em seu gabinete, com a desculpa de que precisava informá-lo sobre o estado de saúde de dois soldados feridos que estava cuidando na Santa Casa. O Marquês de Resende era um dos provedores do hospital, que há muitos anos contribuía de forma atuante para a melhoria nas instalações. Quando o Major Almeida a viu, levantou-se rapidamente e correu para abraçá-la contente em voltar a vê-la.
            ─ Porque você se arriscou vindo aqui me ver, Maria Luísa? – ele indagou aturdido.
            ─ Eu estava com saudades de você. Não gostou da surpresa? – ela disse sorrindo com as mãos apoiadas no ombro do amado.
            ─ Essa surpresa foi maravilhosa, meu amor. Mas você se expôs demais ao vir aqui. – ele declarou cauteloso.
─ Eu sei que ninguém pode desconfiar de que nós dois estamos juntos, mas estou com um pressentimento muito ruim Martim. O Paraguai já declarou guerra ao país e eu sei que o Imperador vai aceitar o confronto, mas não quero vê-lo envolvido nisso. – ela disse apreensiva.
Ele se afastou dela e voltou para a mesa onde reuniu alguns papéis sem conseguir encará-la, o que a fez estremecer de medo ao constatar que Martim está pensando em participar da guerra.
─ Então você está mesmo pensando em se envolver nesse confronto, estou certa? – ela perguntou hesitante.
─ Não conseguiria mentir para você Maria Luísa. A situação entre os dois países está crítica, e o Império não vai ficar de braços cruzados enquanto os paraguaios invadem a província de Mato Grosso e do Rio Grande do Sul. As tropas já estão sendo mandadas para as áreas de conflito. Bem... Eu provavelmente também serei escalado para fazer parte da tropa que partirá para o Sul do país no final do mês. – ele disse sincero, e esperou pela reação dela com a revelação.
Ela se aproximou dele com os olhos marejados e o fitou intensamente desejando que aquilo não passasse de um pesadelo.
─ Por quanto tempo acha que vamos ficar longe um do outro? – ela indagou triste.
─ Não faço idéia de quando isso irá acabar, mas prometo que irei voltar pra você e assim ficaremos juntos para sempre. – ele disse com esperanças enquanto a abraçava forte.
─ Eu vou esperar por você aconteça o que acontecer. Talvez eu tenha que voltar para a fazenda, mas sempre vou procurar obter notícias suas. Enquanto isso, eu irei conversar com os meus pais sobre o nosso relacionamento. Espero que eles aprovem a nossa união para que nós possamos nos casar assim que você volte da guerra Martim. – ela disse convicta pretendendo cumprir a sua promessa.
Ele ficou tão emocionado com as palavras dela que a beijou com ardor, pretendendo arrancar-lhe todos os receios que nutria em seu peito. Maria Luisa ainda não conseguia tirar aquele pressentimento ruim da sua cabeça, e foi com o coração apertado que se despediu do seu amado saindo do gabinete logo em seguida.
Maria Luísa receberia a visita dos seus pais naquele final de semana em sua imponente casa na Corte. O Marquês de Resende só deixava a sua fazenda quando tinha que tratar de assuntos urgentes no Ministério, e ele marcara uma reunião para o início da semana seguinte com o Imperador para oferecer seus préstimos que subsidiassem a batalha contra Solano Lopez, o ditador paraguaio. Outros fazendeiros importantes do Vale do Paraíba também pretendiam colaborar financeiramente com o governo Imperial, que tanto beneficiou a oligarquia cafeeira apesar da recente proibição ao tráfico de escravos na província. 
Quando finalmente o dia da reunião havia chegado, Maria Luisa e sua mãe Lady Christine estavam na sala de estar esperando pelo Marquês, que voltou minutos depois do Palácio Imperial com o semblante preocupado.
─ Então, acredito que não trouxe boas notícias, não foi? – Lady Christine indagou vacilante.
Ele colocou seu bastão de marfim e osso no local de sempre e se dirigiu a sua poltrona predileta, que fora produzida por um artesão português muito requisitado pelos nobres da época, e então, fitou as duas pessoas mais importantes da sua vida com certo pesar no olhar.
─ A situação é crítica, pois os paraguaios estão abrindo várias frentes de guerra do Mato Grosso ao Rio Grande do Sul, mas até o momento a Argentina se mantém neutra perante o assunto, embora eu acredite que os paraguaios pretendem se aproveitar desta situação. Parece que as tropas daqui seguirão até as áreas de conflito, e esperamos que a situação se reverta a nosso favor. – explicou seriamente para as duas que o escutavam atentamente.
─ Meu pai, o senhor já sabe quem serão os oficiais que farão parte da frente de batalha? – Maria Luisa perguntou sem conseguir esconder sua curiosidade.
─ A primeira esquadra será comandada por Barroso, mas haverá também outros oficiais importantes como o Almirante Tamandaré e o Major Almeida.
─ É sobre o Major Almeida que eu quero conversar com os senhores hoje. Ele vai me pedir em casamento assim que retornar da guerra, meu pai.  – Ela declarou com a postura altiva.
Ela não tinha conseguido esperar mais para fazer aquela revelação, e desejava do fundo do seu coração que ambos aceitassem a união para o próprio bem dela.
─ Você não deve estar falando sério num momento como este Maria Luisa. Que história é essa de querer se casar com o major Almeida eu posso saber?
─ Sim, eu estou falando sério papai. Eu desejo muito que os senhores aceitem a nossa união...
─ Então, quer dizer que esse mancebo já estava cortejando você aqui na Corte sem o nosso consentimento Maria Luisa? – ele interpelou a interrompendo com bastante irritação.
─ De certo modo é a verdade, meu pai. Mas procure entender que nós nos amamos e pretendemos nos casar assim que essa guerra acabe...
─ Desista dessa idéia descabida Maria Luisa Natalie Callaghan Queiroz de Castilho. Enquanto eu viver, você só se casará com quem eu e sua mãe desejarmos. Nunca permitirei que minha única filha se junte a um militar abolicionista que ainda por cima não pertence a nossa classe social.
Lady Christine se aproximou da filha, e em seguida pôs suas mãos nos ombros dela tentando confortá-la, apesar de fitá-la nos olhos sem deixar transparecer nenhuma emoção.
─ Entenda querida, eu e o seu pai estamos pensando no seu próprio bem, e, além disso, você já imaginou que ter um homem desses como seu esposo só faria o seu sofrimento aumentar a cada dia em que o espera retornar a sua casa vivo ou morto? – Lady Christine declarou sensatamente.
Maria Luisa respirou profundamente e pediu licença querendo se retirar para o seu quarto, pois queria ficar sozinha entregue aos seus pensamentos. Ela estivera chorando muito por alguns minutos, mas uma idéia começava a povoar sua mente de forma persistente. Aquilo seria uma loucura realmente, mas ela não queria voltar para a fazenda e ficar longe das notícias sobre a guerra. Precisava ficar perto do Major, e sabia que o seu destino não seria igual ao da maioria das mulheres do seu tempo. Maria Luisa queria contribuir para a sociedade naquilo que sabia fazer de melhor: Cuidaria dos enfermos nas áreas de conflito junto aos demais médicos e enfermeiras da Santa Casa, que sairia da Corte rumo ao Rio Grande do Sul.
Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho na porta de carvalho. Era a sua mãe que pedia sua permissão para entrar no quarto. Maria Luisa se levantou da cama hesitante para destrancar a porta e deixá-la entrar. Ela em seguida, se afastou da porta e se dirigiu com o semblante rígido até a janela sem dizer uma palavra. Lady Christine já conhecia aquele olhar, e se perguntava qual seria a nova idéia descabida que passava pela cabeça da sua filha daquela vez.
─ Natalie, vim aqui para avisar-lhe que amanhã bem cedo voltaremos para a fazenda. Queremos que você também volte conosco querida. – ela avisou hesitante.
─ Os senhores irão sozinhos dessa vez. Eu pretendo ficar aqui na Corte e como haverá uma guerra, eu seguirei com alguns colegas da Santa Casa para algum hospital de sangue no Rio Grande do Sul. – ela respondeu altiva e decidida a seguir o seu destino.
Lady Christine ficara tão horrorizada com aquela revelação, que precisou se sentar numa cadeira próxima, temendo desmaiar sem forças com o que acabou de ouvir.
─ Em que século você acha que vive eu posso saber? Este tipo de atitude é inconcebível na nossa sociedade e, além disso, o seu pai e eu jamais aprovaremos essa loucura, trate de esquecer isso, está me ouvindo?
─ Os senhores não entendem que eu estou bem à frente do meu tempo, minha mãe. Eu te suplico que me ajude a seguir o meu destino e não conte ao Marquês os meus planos, por favor. Eu posso contar com a sua ajuda? – ela pediu fitando a mãe profundamente com seus olhos azuis escuros.
Lady Christine estava no auge da sua beleza, e ambas possuíam cabelos loiros bastante compridos, estatura alta que lhes garantia uma elegância incomum, mas com temperamentos bem diversos uma da outra. Maria Luisa era teimosa e impulsiva como o Marquês, enquanto que Lady Christine tinha o costume inglês de jamais exasperar-se sempre adotando uma postura indiferente e fria diante das circunstâncias, exatamente como fizera ainda há pouco.
Lady Christine sorriu mostrando que aceitaria ajudá-la, e se dirigiu até a janela para abraçar sua única e adorada filha. Mesmo discordando das suas atitudes, Lady Christine nunca tivera coragem de contrariá-la em suas decisões. O Marquês de Resende, ao contrário, possuía um temperamento forte, e como descente de Portugueses defendia as tradições com unhas e dentes. Para ele, as ordens do chefe de família deveriam ser seguidas e respeitadas, mas sua única filha sempre fora voluntariosa demais para obedecê-lo.  Acabava por fim cedendo muitas vezes aos caprichos dela mais por intermédio de Lady Christine, que sabia persuadi-lo como ninguém.
Minutos mais tarde, Maria Luisa estava novamente sozinha no quarto, e esperava que sua mãe conseguisse esconder do seu pai a sua participação no que seria o maior conflito da história do país.

6 comentários:

  1. Ótima ideia colocar seu livro aqui no blog! De capítulo em capítulo acho muito mais fácil acompanhar uma leitura! Pude perceber que se trata de uma história que retrata o passado de nosso país! É muito original para os dias de hoje e criativa! faço vbotos de que seja publicada, Mariana!

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  2. Acompanho esse livro pelo Bookess e torço para que um dia ele seja publicado. Continue escrevendo... XD

    ResponderExcluir
  3. Adoreiii o primeiro capítulo *---*
    Mal vejo a hora de ler! Estou super ansiosa para o lançamento :)
    Parabéns pelo ótimo trabalho ^^

    ResponderExcluir
  4. Eu realmente quero ler este livro!!!

    ResponderExcluir
  5. amei o primeiro cap!! espero o lançamento... pq qro mtp a continuaçao *0*

    ResponderExcluir
  6. Adorei o primeiro capítulo do livro e a capa é incrivel!!!

    Parabéns!

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Obrigada pela visita e fique à vontade para comentar! Eu leio cada comentário e aprecio muito respondê-los!

Por favor, note que qualquer comentário negativo demais, com ataques pessoais ou spam serão apagados.

Desde já, agradeço sua compreensão!

Boa leitura!

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  1. Ótima ideia colocar seu livro aqui no blog! De capítulo em capítulo acho muito mais fácil acompanhar uma leitura! Pude perceber que se trata de uma história que retrata o passado de nosso país! É muito original para os dias de hoje e criativa! faço vbotos de que seja publicada, Mariana!

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    Mal vejo a hora de ler! Estou super ansiosa para o lançamento :)
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